domingo, 11 de maio de 2014

Por que não conseguimos lembrar do começo da infância? A ciência explica


Durante a infância, o número de neurônios cresce rapidamente. Seu nascimento veloz pode provocar amnésia

REDAÇÃO ÉPOCA
09/05/2014 13h44 - Atualizado em 09/05/2014 17h06
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No começo da infância, o número de novos neurônios cresce muito rapidamente. Isso bagunça nossas lembranças, e nos faz esquecer (Foto: Getty Images)
Sua avó consegue se lembrar de incidentes ocorridos há 50 anos, mas seu irmão mais novo, do alto de seus 5 anos, mal se lembra daquela viagem que fez 2 anos atrás. A dificuldade que todos temos para recuperar memórias da primeira infância intriga a ciência há muito tempo. Um artigo publicado na revista científica Science propõe uma explicação.  Segundo o trabalho, os neurônios jovens que nascem constantemente nos cérebros infantis bagunçam as memórias, fazendo com que elas se percam. Para crescer, temos de esquecer.

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A pesquisa foi desenvolvida por pesquisadores do SickKids, um hospital infantil associado à Universidade de Toronto, no Canadá.  Segundo o estudo, crianças pequenas registram lembranças perfeitamente. Em seus cérebros, no entanto, a neurogênese – o processo de criação de novos neurônios – ocorre muito velozmente. Em cérebros mais maduros, a criação de novos neurônios é comumente associada a ganhos cognitivos e benefícios para a memória. Para as crianças, a violência do processo bagunça sinapses – a ligação entre os neurônios, por meio das quais as memórias se consolidam. O número de neurônios cresce tão rapidamente que provoca esquecimento.

Para chegar a essa conclusão, os cientistas recorreram a testes com ratinhos. Primeiro, estimularam a criação de memórias, criando uma associação entre um determinado lugar e um choque elétrico (se o ratinho tocar essa ou aquela barra na gaiola, leva um choque, por exemplo). O segundo passo foi estimular a criação de novos neurônios e observar o resultado.

Ao estimular a neurogênese, por meio de drogas ou ao deixar os ratinhos correndo em uma roda por algumas semanas, os cientistas perceberam que os animais passaram a esquecer o que aprenderam.  Ao diminuir a velocidade de criação de neurônios, ao contrário, os ratos mostraram ser mais capazes de lembrar o que aprenderam. Eles também descobriram ser possível eliminar a amnésia infantil ao interromper a neurogênise.

Os pesquisadores fizeram coisa semelhante com outros roedores. No caso, porquinhos-da-índia e um tipo de roedor chileno chamado degu. Ambas as espécies possuem cérebros mais maduros que os ratos ao nascer, e taxas de criação de neurônios mais baixas. O resultado é que não experimentam amnésia infantil. Ao acelerar a neurogênise artificialmente, os pesquisadores perceberam que os animais passaram a se esquecer do que haviam aprendido.
Ao longo dos anos, diversas explicações foram dadas para as raízes da amnésia infantil. Freud, por exemplo, achava tratar-se de uma forma de esquecer traumas da primeira infância. A hipótese proposta por esse novo trabalho não elimina, necessariamente, as explicações anteriores. Mas propõe a existência de um mecanismo biológico para o processo.

De todo modo, esquecer não é, em todos os casos, algo ruim: “Existe uma capacidade finita.” Disse Paul Frankland, principal autor da pesquisa, ao site Vox. “E você quer se livrar da porcaria para se lembrar dos eventos que realmente importam”.
RC

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